
Os heróis não gostam de palavras, os heróis não gostam de poetas, os poetas gostam de heróis mas só estes não souberem que o são.
Os heróis lutam com espadas e não com fábulas mas nunca é a espada que faz o herói, os heróis não conseguem matar os mitos, os heróis às vezes são mitos, os mitos são sempre maiores que os heróis.
Os fios de palavras são como as bússolas – para lá desenrola-se o labirinto de espelhos, para cá segue-se pelo caminho da traição. A língua às vezes é traiçoeira, se não souber por onde vai siga o fio, não siga a seta.
Os heróis nunca são desorientados, os heróis nunca perdem o norte, os heróis nunca têm tempo para mais, nós às vezes perdemos tempo com os heróis.
Os heróis não comem criancinhas, as criancinhas às vezes não comem a sopa, os heróis comeram a sopa toda quando eram criancinhas.
Eu não gosto de heróis. Desconfio que Teseu também não ia gostar nada de mim se me conhecesse.


