sobre o passado dia 3 de novembro, no “no feminino”

Diz-se que a amizade é o melhor ponto de partida para a maioria das viagens. A poesia também o é, desconfio. Não sei exactamente quando é que esta viagem no intercidades começou para elas, mas eu comprei bilhete no dia em que me encontrei com a Helena na Estação de Campanhã e ela me disse “Estou a pensar fazer uma coisa, mas não sei o que é que tu achas”. Olhando agora, parece-me bastante apropriado que tenha sido esse o ponto de partida deste projecto.

E embarcar porquê? Gostei particularmente do facto de elas, a Helena Mancelos, a Carmen Mesa e a Daniela Carneiro se referirem a este momento como um encontro. Feminino. De olhares. Porque se trata do encontro com outras três mulheres, duas das quais eu não conhecia, e porque este é também um encontro de linguagens, de “três formas de arte na expressão de quatro artistas”.

Esta “artista” agradece o título, embora não tenha bem a certeza se ele se aplica, e junta o seu pequeno fio ao emaranhado de todo o tamanho que são as linhas telefónicas, eléctricas, frenéticas, poéticas, artísticas, estas ruas familiares onde todos andamos, onde todos nos misturamos e perdemos o fio à meada – que é, aliás, a melhor coisa que nos pode acontecer, na poesia e não só.

O que resultou dessa noite foi, em parte, também uma surpresa para mim, uma espécie de bilhete com destino incerto, como se faz nos grandes livros da literatura de viagem.

Agradeço-lhes – à Helena, à Carmen e à Daniela – por fazerem do meu livro e do meu trabalho parte do trabalho delas. Agradeço-lhes por mo terem roubado e por nele terem lido o que eu escrevi, o que eu não escrevi e o que provavelmente nem eu sabia que tinha escrito. Prova que o dizer não se esgota nas palavras nem no precipício que se abre nelas. E que há poemas que nos esperam pacientemente em bancos de jardim e na Arte dos Outros.

Agradeço ao No Feminino, por criar espaços que celebram esse olhar feminino sobre o mundo e sobre as coisas. Agradeço a todos os que decidiram passar essa noite connosco num intercidades. Mas digam-me lá se não seria um crime bem rebuscado embarcar antes num expresso do oriente ou num comboio da meia-noite!

Agradeço à Dina o facto de ter sempre uma porta aberta para nós (nós leitores, nós poetas, nós estudantes de jornalismo sem dinheiro para pagar os livros e à procura dos versos do mundo) e por nunca ter desistido desse espaço fantástico chamado Poetria, que é onde, como deveria vir escrito nas histórias infantis, moram todos os livros de poesia. Agradeço à Dina a generosa amizade.

Resta-me desejar-lhes uma boa viagem, neste comboio que, estou certa, terá ainda muitas mais paragens. E dizer-lhes que olhem bem para elas, mulheres.

  1. Querida Minês,

    A existência da Poetria, com toda a precariedade que a envolve, justifica-se por encontros como este, tu e tantos outros seres maravilhosos, que ajudam a tornar o mundo mais habitável, consensual, alegre.
    Sinto que a solidariedade há-de salvar a Poetria, poupando-a a uma morte injusta.
    Um abraço do tamanho do universo, com as suas incontáveis estrelas. E que as nossas mãos se apertem uma à outra sempre que o desânimo ameaçar com pedras os nossos caminho. Dina

  2. Helena

    muito obrigada minês… é tão bom receber as tuas palavras… Tudo o que foi feito teve como ponto de partida o teu olhar … Ele foi o nosso inicio, de onde tudo começou

    Muito obrigada por nos teres oferecido o início do que foi um projecto feito por amigas… e por te teres apoiado do modo generoso e aberto como o fizeste tudo o que foi construído…

    um grande beijinho de muito carinho

    Helena

  3. Carmén Mesa

    A vida é mesmo um lugar de encontros! Importante, bonito, é o que acontece entre eles e a partir deles. Creio que este foi um belo encontro…. descobrir o meu olhar a partir do teu róprio olhar. Os cruzamentos…
    Obrigada Minês e a cada um que, ainda que por acaso, acabou por cruzar olhares.

    Um bejinho estrelado.

    Carmén Mesa

  4. Pingback: o que é que acontece quando três artistas pegam num livro de poemas e o tornam grande? « BLOGUE LITERÁRIO DO PORTO

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